Se para você humor está mais “Zorra Total”, por favor, feche essa janela. Se você acredita que os EUA apenas produzem humor no estilo “Todo mundo em Pânico”, talvez você precise desse Matinê porque hoje iremos falar de Woody Allen. E nada como um filme metalinguístico, clássico e inesquecível para ilustrar o estilo do diretor. Com vocês, A Rosa Púrpura do Cairo, The Purple Rose of Cairo, Woody Allen, 1985, EUA:
Mals pela falta de legenda, pessoal
Heaven… I’m in heaven…
Cecília (Mia Farrow, “O bebê de Rosemary” de 1968 e “A Profecia” de 2006) é uma garçonete de um bar onde trabalha com sua irmã. A década é a de 30, o auge da depressão norte-americana. Seu marido, além de não ter emprego, é violento e alcoólatra. Parece que não há formas para Cecília reencontrar a felicidade, seja em sua situação econômica, seja pelo seu casamento. Sua única distração é o cinema. O filme em cartaz da vez é A Rosa Púrpura do Cairo que ela já viu cinco vezes. E ela foi tantas vezes ao cinema que Tom Baxter (Jeff Daniels, “Boa Noite e Boa Sorte” de 2005 e “101 Dálmatas” de 1996) , o arqueólogo e personagem secundário do filme, se espanta ao vê-la tantas vezes na sala de cinema e sai da tela para conhecê-la. Os outros personagens do cinema, os produtores do filme e, principalmente, o ator que interpretou o arqueólogo, Gil Shepard, não querem que o personagem permaneça no mundo real. Assim, Cecília fica dividida entre o mundo mágico do cinema e sua triste realidade. Para se esconder do mundo, Tom fica refugiado num parque de diversões abandonado. Um lugar muito apropriado para quem é de mentirinha e quer brincar de ser de verdade.
Tanto Cecília como Tom são ingênuos e sonhadores. Enquanto ele tenta ir para a realidade, ela busca o mundo perfeito dos filmes para fugir da sua vida real, mesmo sabendo que não pode viver no mundo da fantasia para sempre. Já Gil Sheperd, o ator que deu vida a Tom, é extremamente egocêntrico, vaidoso e orgulhoso e se encanta pelos elogios sinceros de Cecília. Para melhorar, ele é de verdade. Cecília fica então, dividida entre o seu marido violento e bêbado; Tom perfeito demais para ser verdade e Gil, real e interessado nela. Qualquer apaixonado por cinema sente a alegria dela quando ela tem na sua frente um de seus personagens favoritos em carne e osso. Quando ela está com Tom, Cecília fica radiante, ainda que com receio por seu casamento e pelo fato de que ele é um personagem de um filme e não é real. O sonho de qualquer mocinha que gosta de um personagem de cinema ou televisão. Beijos, Dean Winchester.
Os filmes de Woody Allen são caracterizados por alguns elementos comuns: uma crítica bem humorada à sociedade contemporânea, o ambiente judaico e burguês dos Estados Unidos, o cotidiano com questões filosóficas. “A Rosa Púrpura do Cairo” é um dos poucos filmes das primeiras fases de sua carreira em que Allen não atua e com a narrativa pelo ponto de vista feminino. A trilha sonora é sensacional, nos leva ao tempo de ouro do cinema com o Jazz e o uso sem falhas do preto e branco. A Rosa Púrpura do Cairo pertence ao que chamamos de Realismo Fantástico. Embora se baseie na realidade, ela tem elementos completamente fictícios, já que se passa num período de depressão norte-americana historicamente real, porém com um personagem de filme que sai da tela para o mundo real. Quando Tom sai da tela, os demais personagens ficam nela sem saber o que fazer, já que não podem continuar a cena sem Tom, mas discutem, passam a ter fome, sono. Essa cena é uma leve homenagem a um diretor muito estimado por Allen, Luis Buñuel, o pai do surrealismo em seu filme O Anjo Exterminador. Assim como em “500 Dias com Ela”, a fotografia de “A Rosa…” ilustra o estado de espírito de Cecília. Enquanto ela está em sua vida real e infeliz, as cenas tem cores melancólicas, monotônicas, frias. Quando está com Tom, o clima frio do local fica romântico, as cores ganham aspectos mais vivos.
Woody Allen é um dos meus diretores favoritos. Ele tem uma linguagem específica em seus filmes, que os tornam deliciosos de se acompanhar. Não são filmes ultra violentos ou intelectuais demais. Garantem risadas, com uma certa classe e inteligência. Um lorde judeu do humor, digamos assim. “A Rosa Púrpura do Cairo” é um dos filmes que Woody Allen mais gosta, e isso é também um dos motivos de eu ter escolhido esse filme para estreiar um Matinê de Allen. O diretor já declarou que “Para mim, a fantasia é que é boa. A realidade não é nem um pouco atraente”. E é essa declaração de amor ao cinema que torna “A Rosa Púrpura…” um clássico. Mesmo sendo sutil e romântico, não deixa de ser uma crítica à Hollywood e ao comportamento da sociedade norte-americana.
Se você curte um cinema descompromissado, simples porém muito bem feito, irá amar A Rosa Púrpura do Cairo. Se você é um cinéfilo, entusiasta do cinema ou simplesmente gosta muito de ver filmes, vai gostar de “A Rosa…”. Se assim como Cecília, seus olhos ficam vidrados ao ver grandes nomes da sétima arte como Fred Astaire e Ginger Rogers (o casal que aparece dançando na cena final do filme) na telona, você deve assistir “A Rosa…” e se deliciar com a magia que Woody Allen é capaz de fazer.



























“Beijos, Dean Winchester.”
HAHAHHAHAHAHAHAHAHHAHAHA’
Gostei desse matinê! Vou procurar esse filme, parece ser incrível!
Eu gostei muito desse filme quando eu vi! Tão bonitinho e ao mesmo tempo tão triste! rs Boa matinê ;D
Ah, que saudade desse filme.
Ele é realmente muito fofo, de um jeito agridoce.
Ainda hoje tenho um carinho especial pela Jeff Daniels
=D